Obstetra suspeito de ignorar chamados e não ir ao hospital para atender grávida que morreu é impedido de atuar no SUS
Sogra relata últimas horas de gestante que morreu à espera de obstetra em hospital de MG O obstetra Higo Moreira Fonseca, investigado pelas mortes da gestante...
Sogra relata últimas horas de gestante que morreu à espera de obstetra em hospital de MG O obstetra Higo Moreira Fonseca, investigado pelas mortes da gestante Bárbara Luana Fernandes Aleixo, de 29 anos, e do bebê que ela esperava, de 30 semanas, está proibido pela Justiça de exercer atividades médicas na rede pública de saúde em todo o país. A medida foi determinada durante audiência de custódia realizada na quarta-feira (10), após a prisão em flagrante do médico. Na decisão, o juiz André Augusto Borges Bellucci concedeu liberdade provisória a Higo, mas impôs medidas cautelares. Entre elas está a suspensão da atuação profissional do obstetra no Sistema Único de Saúde (SUS). 📱 Favorite o g1 no Google e acompanhe as principais notícias do dia. Segundo o documento, o obstetra está proibido de exercer atividades médicas, especialmente na área de obstetrícia, além de ocupar cargos de direção, chefia ou administração em hospitais, fundações e outras unidades da rede pública de saúde em todo o país. A decisão também determina que o Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRM-MG) seja comunicado para fiscalizar o cumprimento da determinação judicial. Higo Moreira Fonseca Reprodução/Redes Sociais O g1 questionou os conselhos federal e regional de medicina sobre procedimento instaurado para apurar o caso, mas não houve retorno até a última atualização da reportagem. Além da suspensão das atividades no SUS, Higo também está proibido de frequentar o Hospital São Francisco, em Três Marias, e de manter contato com testemunhas e funcionários da unidade. A restrição foi imposta após o magistrado concluir que a medida é suficiente para evitar prejuízos às investigações e impedir que o médico volte a atuar em circunstâncias semelhantes às apuradas no inquérito. A reportagem também entrou em contato com o advogado do obstetra, Higor Magid Lauar de Castro Vieira, para saber se gostaria de comentar a decisão, mas não obteve retorno até a última atualização da matéria. Em nota sobre o caso divulgada na sexta-feira (12), a defesa destacou que a investigação ainda se encontra em fase inicial, razão pela qual a adequada compreensão dos fatos exige cautela e dependerá da análise de todos os elementos que vierem a ser produzidos e considerados pelas autoridades competentes. Leia a nota na íntegra ao final do texto. Sonho interrompido Bárbara morreu na madrugada do dia 9 de junho, no hospital público de Três Marias (MG), na região central de Minas Gerais juntamente ao filho que esperava. Ela deu entrada na unidade com suspeita de pré-eclâmpsia, mas, segundo a investigação criminal, o obstetra de plantão sobreaviso não compareceu na unidade enquanto o quadro da paciente se agravava. 🔍 O plantão de sobreaviso é uma modalidade em que o médico não permanece no hospital durante todo o período, mas deve ficar disponível para ser acionado e comparecer à unidade sempre que houver necessidade de atendimento especializado. Desde então, a família tenta lidar com a perda da jovem, conhecida pelo jeito carinhoso. Segundo Jusimara Ferreira da Silva Leite, a nora era uma pessoa amorosa, que gostava de agradar quem estava ao seu redor e se sensibilizava com o sofrimento dos outros. "Ela sentia a dor do outro. Não brigava com ninguém, não tinha maldade e não desejava mal para ninguém", relembrou emocionada. O g1 procurou o hospital para se manifestar sobre o ocorrido, porém não houve respostas até a última atualização da reportagem. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Triângulo no WhatsApp Bárbara Luana Fernandes Aleixo, gestante morreu em hospital de Três Marias Arquivo pessoal/Reprodução Polícia apura negligência médica e omissão de socorro Segundo a sogra de Bárbara, a gestante procurou atendimento no Hospital São Francisco na noite de segunda-feira (8) após apresentar pressão alta. Ela recebeu medicação, mas, conforme o relato da família, passou a sentir fortes dores, teve episódios de vômito, desmaiou e apresentou piora progressiva ao longo da madrugada. De acordo com a Polícia Civil, testemunhas e documentos indicam que o obstetra Higo Moreira Fonseca foi acionado diversas vezes pela equipe médica entre 22h08 de segunda-feira e 5h25 de terça-feira, mas não compareceu ao hospital durante o período considerado crítico. Ainda segundo a investigação, o médico chegou à unidade apenas após a segunda parada cardiorrespiratória da paciente, quando Bárbara já havia morrido. Em depoimento, Higo apresentou uma versão diferente. Ele afirmou que não foi informado sobre uma emergência obstétrica, negou ter ignorado os chamados e atribuiu falhas à equipe de plantão. O caso é investigado pela Polícia Civil por suspeitas iniciais de negligência médica e omissão de socorro. Para a família, houve demora no atendimento especializado. A sogra da gestante acredita que o desfecho poderia ter sido diferente caso o médico tivesse comparecido ao hospital ou orientado a transferência da paciente para uma unidade com mais recursos. LEIA TAMBÉM: Casa é interditada após obra vizinha causar risco de desabamento Morador levado à força da porta de casa foi assassinado por vingança, diz polícia Durante jogo do Brasil, morador em situação de rua invade loja e furta camisas da seleção Médico chegou ao hospital depois das 5h Hospital São Francisco, em Três Marias (MG) Google Street View/Reprodução Quando Higo Moreira Fonseca chegou ao hospital, por volta das 5h27, Bárbara Luana já estava em parada cardiorrespiratória irreversível. Segundo o inquérito, o anestesista defendeu a realização de uma cesariana pós-morte para tentar salvar o bebê de 30 semanas, mas o obstetra decidiu não realizar o procedimento por entender que o tempo sem oxigenação inviabilizava a sobrevivência da criança sem graves sequelas. A Polícia Civil informou que a prisão do médico foi baseada em depoimentos, documentos e outros elementos reunidos durante a investigação, incluindo sua ausência durante parte do atendimento à gestante. Segundo a equipe policial que realizou a prisão do obstetra, ele tentou fugir durante a abordagem e foi necessário que uma policial sacasse uma arma para impedi-lo. O advogado do obstetra contestou a versão apresentada pela polícia. Segundo ele, o médico não deu ré para tentar fugir e a interpretação dos policiais não corresponde ao que ocorreu. Na quarta-feira (10), a Justiça concedeu liberdade provisória ao médico mediante medidas cautelares. As investigações continuam. O que disse a defesa do médico "Manifestamos preocupação com a circulação de informações incompletas, especulações e conclusões antecipadas acerca dos fatos atualmente objeto de investigação. Inicialmente, registramos nosso respeito à memória das pessoas envolvidas e nossa solidariedade aos familiares que enfrentam este momento de profunda dor. É importante destacar que a investigação ainda se encontra em fase inicial, razão pela qual a adequada compreensão dos fatos exige cautela e dependerá da análise de todos os elementos que vierem a ser produzidos e considerados pelas autoridades competentes ao longo da apuração. Também é necessário esclarecer que a atividade médica em regime de sobreaviso constitui modalidade regularmente reconhecida e regulamentada pelo Conselho Federal de Medicina, não se confundindo com plantão presencial permanente nas dependências hospitalares. Trata-se de modelo amplamente utilizado em instituições de saúde públicas e privadas em todo o país. Da mesma forma, é importante registrar que o contexto assistencial objeto da investigação apresenta complexidade superior àquela que vem sendo retratada em parte do debate público, envolvendo circunstâncias e elementos que ainda serão devidamente analisados e esclarecidos no curso da investigação pelas autoridades competentes. A defesa reafirma sua confiança nas instituições responsáveis pela apuração dos fatos e recorda que a Constituição da República assegura a toda pessoa o direito à presunção de inocência, ao contraditório, à ampla defesa e ao devido processo legal." VÍDEOS: veja tudo sobre o Triângulo, Alto Paranaíba e Noroeste de Minas